Arte & Medo – Parte I – Capítulo III

III.

MEDOS DE VOCÊ MESMO

Nós encontramos o inimigo e ele é nós.
– Pogo

Adiante há uma larga expansão do rio, fluindo rapidamente. O remador tendo aprendido seu ofício somente recentemente, nervosamente manobra a evitar a única pedra rio abaixo. A pedra está bem no centro, a corrente é calma em ambos os lados dela. Você assiste da costa. O remador vai para a esquerda. Vai para a direita. E então bate em cheio na pedra. Quando você age motivado pelo medo, seus medos se tornam realidade.

Medos sobre fazer arte caem em duas famílias: medos de você mesmo e medos da sua recepção pelos outros. Em geral, medos de você mesmo te previne de fazer seu melhor trabalho, enquanto medos de como os outros verão o que você faz te previne de fazer o seu próprio trabalho. Ambos casos podem vir em muitas formas, algumas das quais você talvez ache familiar.

FINGINDO

O medo de que você está somente fingindo fazer arte é (previsivelmente) consequência de duvidar das suas próprias credenciais artísticas. Afinal, você sabe mais do que nenhuma outra pessoa sobre a natureza acidental de muito do que faz na sua arte, sem mencionar todos os elementos que você sabe que se originaram em outros (e ainda mais outros que não eram sua intenção, mas que a audiência viu em seu trabalho). Desse ponto é um simples pulo para você se sentir que ainda não é nada a não ser um aprendiz de artista. É fácil de imaginar que artistas verdadeiros sabem o que eles estão fazendo, e que eles – diferentemente de você – estão intitulados a se sentirem bem a respeito deles mesmo e de sua arte. Medo de que você não seja um artista real faz com o que você subestime o seu trabalho.

O abismo aumenta ainda mais quando o seu trabalho não está indo bem, quando acidente felizes não estão acontecendo ou intuições não estão te levando a lugar nenhum. Se você acreditar na premissa que arte só pode ser feita por pessoas extraordinárias, esses períodos simplesmente servem para confirmar que você não é um deles.

Antes de jogar tudo para o alto por um trabalho qualquer, todavia, considere as dinâmicas em jogo aqui. Tanto fazer arte quanto ver arte requerem um investimento massivo de energia. Em momentos de fraqueza, o mito do extraordinário provê uma desculpa para um artista desistir de tentar fazer arte e dá também uma desculpa a quem vê para parar de entender a arte.

Enquanto isso, artistas que continuam frequentemente se tornam perigosamente auto-conscientes sobre sua arte. Se você duvida que isso possa ser um problema, simplesmente tente trabalhar intuitivamente (ou espontaneamente) enquanto auto-conscientemente pesa o efeito de cada ação sua. A prevalência cada vez maior de arte reflexiva – arte que olha para dentro, tendo ela mesmo como assunto – ilustra em algum degrau que artistas podem simplesmente estar transformando esse obstáculo em uma vantagem. Arte-que-é-sobre-a-arte por sua vez criou toda uma nova escola de críticos de arte construída sobre a verdadeira porém limitada ideia de que aritstas continuamente “redefinem” a arte através do seu trabalho. Essa aproximação trata “o que é arte” como um tópico legítimo, sério e até mesmo espinhoso, mas gasta pouca energia na questão “o que é fazer arte”.

Claramente existe algo desbalanceado aqui. Afinal, se houvesse uma contínua redefinição de “o que é xadrez”, você provavelmente se sentiria um pouco apreensivo em começar a jogar xadrez. Claro que você pode sempre continuar a jogar se limitando a umas poucas jogadas fáceis que já viu funcionarem para os outros. E aí então concluir que já que não pode ter certeza do que o xadrez é, você não poderia ser um jogador real de xadrez e estava somente a fingir jogar ao mover peças. Você pode até secretamente desejar perder por achar que merece perder. Se esse cenário soa irreal para xadrez, infelizmente, é desanimadoramente comum em arte.

Mas enquanto você pode sentir que está só fingindo que é um artista, não há maneira de fingir que você está fazendo arte. Vá em frente, tente escrever uma história enquanto finge que está escrevendo uma história. Não é possível. Seu trabalho pode não ser o que curadores queiram exibir ou editoras queiram publicar, mas essas são questão completamente diferentes. Você faz trabalhos bons ao fazer muitos trabalhos que não são bons e a gradualmente capinar o que não é bom, as partes que não são suas. É chamado de feedback e é a rota mais direta para aprender sobre sua própria visão. É também chamado de fazer o seu trabalho. Afinal, alguém tem que fazer o seu trabalho e você é a pessoa que está mais perto.

TALENTO

Talento, em dialeto popular, é “o que vem fácil”. Então cedo ou tarde, inevitavelmente, você alcança o ponto que o trabalho não vem fácil e – Aha!, é exatamente como você tinha medo!

Errado. Por definição, qualquer coisa que você tenha é exatamente o que você precisa para produzir seu melhor trabalho. Não há provavelmente desperdício de energia do que se preocupar em quão talentoso você é – e provavelmente não há preocupação mais comum. Isso é verdadeiro até entre artistas de consideráveis conquistas.

Talento, se qualquer coisa, é um dom e não é nada do que o artista fez. Essa ideia não é nova: Platão dizia que toda arte é um presente dos deuses, canalizados através de artitas que estavam “fora de suas cabeças” – literalmente, na visão de Platão – quando faziam arte. Platão, entretanto, não é o único filósofo do quarteirão; enquanto suas descrições relacionam-se bem com o funcionamento do Oráculo de Delphi, eruditos idiotas e certos evangelistas de TV, é difícil de conciliar essa ideia com os eventos reais do mundo.

Se talento fosse pré-requisíto, então quanto melhor a arte, mais fácil teria de ter sido feita. Mas tristemente, o destino raramente é tão generoso. Para cada artista que desenvolveu uma visão madura com graça e velocidade, inúmeros outros laboriosamente nutriram sua arte com períodos fértis e períodos secos, através de falsos começos e explosões, através de sucessivas e significativas mudanças de direção, mídia e assunto. Talento pode fazer com alguém saia dos fundamentos básicos mais rápidos, mas sem um senso de direção ou um objetivo para mirar, não conta muito. O mundo é cheio de pesoas que foram dadas absurdos talentos naturais e ainda assim nunca produzem nada. E quando isso acontece, o mundo não se importa mais com aqueles que são talentosos.

Ainda no caso em que o talento se mantenha uma constante, aqueles que se confiam no talento somento e não desenvolvem-o adiante, rapidamente alcançam o auge e logo desaparecem na obscuridade. Exemplos de gênios simplesmente acentuam a verdade. Jornais adoram imprimir histórias de garotos de cinco anos que são prodígios musicais, mas você raramente lê que um deles está em seu caminho para se tornar o próximo Mozart. O ponto aqui é que qualquer que seja o talento inicial, Mozard também foi um aritsta que aprendeu a trabalhar no seu trabalho, e então melhorou. Nesse ponto, ele compartilha coisas com todos nós. Artistas ficam melhor ao afiar suas habilidades ou ao adquirir novas habilidades; eles ficam melhores ao aprender a trabalhar e ao aprender com o seu trabalho. Eles se comprometem com seu trabalho e agem sobre esse comprometimento. Então quando você pergunta, “Então porque não vem fácil para mim ?”, a resposta provavelmente é, “Porque fazer arte é difícil!”. O que você acaba por se importar é com o que você faz, não se veio fácil ou difícil.

UMA BREVE DIGRESSÃO NA QUAL OS AUTORES TENTAM RESPONDER (OU DESVIAR) UMA OBJEÇÃO:

P: Você não está ignorando o fato de que pessoas diferem radicalmente em suas habilidades ?
R: Não.
P: Mas se as pessoas diferem, e cada uma delas fizesse o seu melhor trabalho, não seriam os mais talentosos aqueles com os melhores trabalhos ?
R: Sim. E esse não seria um ótimo lugar para viver ?

Talento é uma cilada e uma ilusão. No final, as questões práticas sobre talento se tornam essas: Quem se importa ? Quem saberia ? E que diferença isso faz ? E as respostas práticas são: Ninguém, Ninguém e Nenhuma.

PERFEIÇÃO

O professor de cerâmica anunciou no dia da abertura que ele estava dividindo a classe em dois grupos. Todos os que estavam no lado esquerdo do estúdio, ele disse, seriam avaliados simplesmente pela quantidade de trabalho produzido, todos a direita, seriam avaliados pela qualidade. Seu procedimento era simples: no dia final da classe ele traria a balança que tinha em seu banheiro e mediria o peso do trabalho do grupo da “quantidade”: 22 quilos de jarras seria um “A”, 18 quilos seriam um “B” e assim por diante. Aqueles que levariam notas por “qualidade”, entretanto, precisavam produzir somente uma jarra – uma perfeita – para conseguir um “A”. Bem, chegou a avalição e um fato curioso foi constatado: os trabalhos de maior qualidade foram todos produzidos pelo grupo da quantidade. Parece que enquanto o grupo da quantidade estava ocupadamente cuspindo pilhas de trabalho – e aprendendo com seus enganos – o grupo da qualidade havia sentado a teorizar sobre perfeição e no final tinham pouco mais para mostrar do que teorias grandiosas e uma pilha de argila morta.

Se você pensa que bom trabalho é de alguma maneira sinônimo com trabalho perfeito, você está prestes a ter problemas. Arte é humana, erro é humano, ergo, arte é erro. Inevitávelmente, o seu trabalho (como o silogismo anterior) será falho. Porquê ? Porquê você é um ser humano e somente seres humanos, falhos e tudo o mais, fazem arte. Sem falhas não seria claro o que você seria, mas claramente você não seria um de nós.

No entanto, persiste entre artistas (e muitos ex-artistas) a crença de que fazer arte significa fazer as coisas sem falhas – ignorando o fato de que esse prerequísito desqualificaria automaticmente a maior parte dos trabalhos de arte. De fato, é muito mais plausível avançar o contra-princípio, aquele que imperfeição não é somente um ingrediente comum, mas sim essencial. Ansel Adams, um que não confunde perfeição com precisão, frequentemente relembrava o velho adágio que “a perfeição é inimigo do bom”, o ponto dele sendo de que se ele esperasse que tudo na sua fotografia fosse perfeita, ele provavelmente nunca tiraria a foto.

Adams estava certo: exigir perfeição é convidar a paralisia. O padrão é previsível: ao ver erro no que fez, você começa a guiar o seu trabalho ao que você acha que pode fazer perfeitamente. Você se agarra cada vez mais ao que você já sabe, longe do risco e da exploração e possivelmente para mais longe do trabalho do seu coração. Você acha razões para procrastinar, já que não trabalhar é não cometer enganos. Acreditar que sua arte deveria ser perfeita, você gradualmente se convence que você não pode fazer tal trabalho. (Você está certo.) Cedo ou tarde, já que você não pode fazer o que você quer, você desiste. E em uma daquelas pequenas e perversas ironias da vida, só o padrão em si atinge perfeição – um espiral perfeito da morte: você guia mal o seu trabalho, você para; você desiste.

Exigir perfeiçAo é negar sua ordinária (e universal) humanidade, como se você fosse ser melhor sem ela. Ainda assim, é essa humanidade a fonte derradeira do seu trabalho; seu perfeccionismo nega a você exatemente o que você precisa para finalizar o seu trabalho. Continuar com o seu trabalho exige o reconhecimento de que a perfeição é (paradoxalmente) um conceito falho. Para Einstein, até mesmo a construção perfeita das fórmulas matemáticas renderam-se a sua observação de que “Até onde as leis da matemática se referem a realidade, elas não são infalíveis; e até onde elas são infalíveis, elas não se referem então a realidade.” Para Darwin, evolução revelou que uma estratégia perfeita de sobrevivência de uma geração poderia se tornar, em um mundo que muda, uma deficiência para a sua prole. Para você, a semente do seu próximo trabalho de arte está lá misturada as imperfeições da sua peça atual. Tais imperfeições (ou enganos, se você está se sentindo particularmente depressivo a respeito delas hoje) são seus guias – valorosos, confiáveis, objetivos, não te julgam – a coisas que você precisa reconsiderar ou desenvolver mais. É precisamente essa interação entre o ideal e o real que trava sua arte no mundo real e dá sentido a ambos.

ANIQUILAÇÃO

Para a maior parte dos artistas, encarar um período de seca é um golpe sério; para alguns seria o equivalente a aniquilação. Alguns artistas se identificam tão intimamente com seu trabalho que se eles parassem de produzí-lo, eles temem que passariam a ser nada – que deixariam de existir. Nas palavras de John Barth, “É o terror de Scheherazade: o terror de contar histórias com sua própria vida. Eu entendo essa metáfora com a medula dos meus ossos.”

Alguns evitam esse abismo auto-imposto ao se tornarem estupendamente produtivos, cuspindo trabalhos em quantidades que surpreende até amigos próximos (e posivamente enerva seus iguais!). Eles trabalham passionalmente, como se estivessem possuídos – e você também não o faria, se soubesse que isso é tudo que mantém a Morte do outro lado do rio ?

Outros, não menos, tem uma aproximação racional e de professionalismo: precisos, implacáveis e destinatados restritivamente a fazer arte – que, de fato, podem ser muito bons nisso. Registros indicam que Anthony Trollope metodicamente rascunhava exatamente 49 páginas por semana – 7 por dia – e era tão obcecado em manter essa agenda que se ele terminasse um livro pela manhã, ele já escrevia o título para um novo livro em uma planilha e labutava implacavalmente até completar sua cota do dia. E por experiência pessoal, os autores podem atestar que Brett Weston, um caso de estudo virtual em aniquilação, por déadas manteu em sua casa uma exibição contínua de uma dúzia ou mais de fotos, nenhuma das quais jamais era mais velha que seis meses.

Ainda assim, devem haver muitos destinos piores que a inabilidade de parar de produzir arte. O artista que teme aniquilação talvez desenha a linha entre fazer e ser um tanto quanto parecidas demais, mas esse é mesmo um caso de ter muito de uma coisa boa. Aniquilação é um medo existencial: o medo – mas acentuado aqui – comum de que uma parte de você morre quando você para de fazer arte. E é verdade. Não-artistas podem não entender isso, mas artistas (especialmente aqueles que estão empacados) entendem bem demais. A profundidade da nossa necessidade em fazer coisas estabelece o nível do risco em não fazê-las.

MÁGICA

“Há um mito entre amadores, otimistas e tolos que após um certo nível de conquista, artistas famosos retiram-se para um tipo de Elísio onde criticismo já não dói mais e o trabalho se materializa sem esforço.”
– Mark Matousek

Em um teatro escuro o homem de smoking acena suas mãos e um pombo aparece. Nós chamamos isso de mágica. Em um estúdio ensolarado um pintora acena suas mãos e um mundo inteiro toma forma. Nós chamamos de arte. As vezes a diferença não é clara. Imagine que você acabou de ir a uma exibição e viu trabalhos tão poderosos e coerentes, trabalho que tem alcance e propósito. A Afirmação do Artista emoldurada perto da porta é clara: esses trabalhos materializaram-se exatamente como o artista os concebeu. O trabalho é inevitável. Mas espera aí – o seu trabalho não parece inevitável (você pensa), e então você começa a imaginar: talvez fazer arte requer algo especial ou até mesmo mágico que eu não tenho.

A crença de que arte “verdadeira” possuí algum ingrediente mágico indefínivel coloca pressão em você para provar que seu trabalho contém o mesmo. Errado, muito errado. Pedir ao seu trabalho para provar qualquer coisa simplesmente o convida a condenação. Além do mais, se artistas compartilham uma visão comum da mágica, é provavelmente a suspeita fatalista de que quando sua própria arte se dá bem, é um acaso – mas quando se dá mal, é um presságio. Acreditar na idéia da mágica deixa você se sentindo menos capaz cada vez que as qualidades de outro artista são enaltecidas. Então se um crítico elogia a obsessão de Nabokov pelo jogo de palavras, você começa a se preocupar que você não consegue sequer soletrar obsessão. Se o amor de Christo por processo é defendido, você se sente culpado por sempre ter odiado limpar seus pincéus. Se algum historiador de arte comenta que boa arte é o produto de tempos e lugares especialmente fertéis, você começa a pensar que você precisa se mudar para Nova Iorque.

Reconhecidamente, fazer arte provavelmente requer algo especial, mas o que é esse algo continua algo bem elusivo – elusivo o bastante para sugerir que pode ser algo particular de cada artista, ao invés de universal a todos eles. (Ou até mesmo, talvez, que tudo isso é nada mais que a variação do mundo da arte para a Nova Roupa do Imperador). Mas o ponto importante aqui não é que você tem – ou não tem – o que outros artistas tem, mas sim que não importa. O que quer que eles tenham é algo que é preciso para fazer o trabalho deles – não ajudaria você a fazer o seu trabalho mesmo que você tivesse o mesmo. A mágica deles é deles. Não falta em você. Você não precisa dela. Não tem nada a ver com você. Ponto.

EXPECTATIVAS

Flutuando lá fora em algum lugar entre causa e efeito, entre medos de si mesmo e medos dos outros,  está a expectativa. Sendo uma das mais complexas funções do cerébro (como o nosso neocortéx modestamente se chama), expectativas provêm um meio de fundir imaginação com cálculo. Mas é um balanço delicado – incline-se demais para um lado e sua cabeça se enche com fantásias impraticáveis, para o outro e você passa a vida gerando listas do que fazer.

Pior ainda, expectativas derrapam nas fantasias facilmente. Em um recente workshop para escritores, o instrutor labutou heroicamente para manter a discussão centrada nos assuntos do ofício (ainda não aprendido), enquanto escritores (ainda não publicados) labutaram igualmente para divergir o foco com questões sobre royalties, direitos cinematográficos e sequências.

Dado um pequeno núcleo de realidade e qualquer medida de otimisto, expectativas nebulosas sussurram que o trabalho irá elevar-se, que se tornará fácil, que vai se materializar. E de vez em quando, o céu se abre e o trabalho de fato se materializa. Expectativas irreais são fáceis de ter, tanto por necessidades emocionais e da esperança e memória dos períodos de maravilhas. Infelizmente, expectativas baseadas em ilusão levam quase sempre a desilusão.

Reciprocamente, expectativas baseadas no trabalho em si podem ser a ferramente mais poderosa que o artista tem. O que você precisa saber sobre a próxima peça está contido na última peça. O lugar para aprender sobre seus materiais está no último uso dos seus materiais. O lugar para aprender sobre sua execução está em sua execução. A melhor informação sobre o que você ama está no último contato com o que você ama. Colocado de maneira simples, seu trabalho é seu guia completo, compreensivo, uma referência ilimitada do seu trabalho. Não há outro livro como tal e ele é só seu. Não funciona desse jeito para ninguém mais. Suas digitais estão em todas as páginas e só você sabe como elas chegaram lá. Seu trabalho conta a você seus métodos, sua disciplina, suas forças e suas fraqueas, seus gestos habituais, seu desejo por compreender.

As lições que você está suposto a aprender estão no seu trabalho. Para vê-las, você simplesmente precisa olhar para o trabalho claramente – sem julgamentos, sem necessidade ou medo, sem desejos ou esperanças. Sem expectativas emocionais. Pergunte ao seu trabalho o que ele precisa, não o que você precisa. Então deixe de lado seus medos e escute do mesmo jeito que bons pais escutam seus filhos.

Use Facebook to Comment on this Post

Arte & Medo – Índice

Esta é uma tradução do livro Art & Fear – Observations On The Perils (and Rewards) of Artmaking. Como esse livro foi escrito em 1993 e jamais foi lançado em solo brasileiro (ou português, for that matter), estou aqui traduzindo-o para que algumas pessoas (amigos, amores e estranhos) possam lê-lo e retirar algo de tantos bons conselhos (e compreensões) que se encontram nesse livro. Não escrevi nada disso e não sou dono de nenhum desse conteúdo. Isso é meramente uma tradução artesanal. Se gostar, compre-o (por favor).

Art & Fear
Observations On The Perils (and Rewards) of Artmaking

Davis Bayles & Ted Orland

Parte I

  1. Introdução
  2. A Natureza do Problema
  3. Arte e Medo
  4. Medos de Você Mesmo
  5. Medos dos Outros
  6. Encontrando o Seu Trabalho

Parte 2

  1. O Mundo Exterior
  2. O Mundo Acadêmico
  3. Mundos Conceituais
  4. A voz Humana

 

Use Facebook to Comment on this Post

Arte & Medo – Parte I – Capítulo I

Escrever é fácil:
tudo que você tem que fazer é sentar encarando uma folha branca de papel
até que gotas de sangue se formem na sua testa.
– Gene Fowler

I.

A NATUREZA DO PROBLEMA

A vida é curta, a arte é longa, oportunidade é fugaz,
a experiência é traiçoeira e o julgamento é difícil.
– Hipócrates (460-400 A.C.)

FAZER ARTE É DIFÍCIL. Nós deixamos desenhos não terminados e histórias não escritas. Nós criamos trabalhos que não parecem serem nossos. Nós nos repetimos. Nós paramos antes de termos dominado nossos materiais, ou continuamos muito depois do potencial dos mesmos estarem exaustos. Frequentemente o trabalho que não fizemos parece mais real em nossas mentes do que as peças que já completamos. E então a questão surge: Como a arte é feita ? Por que, tão frequentemente, não é feita ? E qual a natureza dessas dificuldades que param tantos daqueles que começam ?

Estas questões, que parecem tão atemporais, podem na verdade serem particulares da nossa era. Pode ter sido mais fácil pintar um bisão nas paredes das cavernas há muito tempo atrás do que escrever essa (ou qualquer outra) frase hoje. Outras pessoas, em outros tempos e lugares, tinham instituições fortes para oferecerem-las conforto; veja a Igreja, o clã, ritual, tradição. É fácil de imaginar que artistas duvidavam menos do seu chamado quando estavam trabalhando a serviço de Deus do que trabalhando a serviço do eu.

Não é assim hoje. Hoje em dia quase ninguém se sente seguro ou confortável. Hoje em dia, arte não nasce de um terreno seguro que temos em comum: o bisão na parede da caverna é a mágica de outro alguém. Fazer arte agora significa trabalhar em face da incerteza; significa viver com dúvida e contradição, fazendo algo que ninguém se importa muito se você faz, e para o qual provavelmente também não haverá audiência nem recompensa. Fazer o trabalho que você deseja fazer significa colocar de lado essas dúvidas para que somente então você possa ver com clareza o que você fez, e desse modo enxergar para onde deve ir depois. Criar a arte que você deseja criar significa encontrar sustento no trabalho em si. Essa não é a Idade da Fé, Verdade e Convicção.

Ainda assim, mesmo a noção de que você tem algo a dizer nesse processo conflita com a visão prevalecente de fazer arte hoje – nomeadamente, que arte descansa fundamentalmente sobre a pedra do talento, e que talento é um dom aleatoriamente dado à algumas pessoas e não a outras. Em linguagem comum, ou você tem ou você não tem – arte ótima é produto dos gênios, boa arte é produto dos quase-gênios (o qual Nabokov disse que é mesma coisa de Quase-Cerveja), e de assim em diante até o patamar das revistas pulp ou daquelas revistas onde você pinta uma cor pelo número. Essa visão é inerentemente fatalista – mesmo que seja verdade, é fatalista – e não oferece nenhum encorajamento útil para aqueles que fariam arte. Pessoalmente, nós concordamos com Conrad no que diz respeito ao fatalismo: nomeadamente, que é uma espécie de medo – o medo de que o seu destino está em suas próprias mãos, mas que suas mãos são fracas.

Mas enquanto talento – para não mencionar destino, sorte e tragédia – cumprem seus papéis no destino humano, eles dificilmente são uma ferramenta segura e confiável para avançar a sua própria arte no dia-a-dia. Aqui no mundo do dia-a-dia (que é, afinal, o único que vivemos), o trabalho de engrenar o seu trabalho se torna um de ter certas suposições sobre a natureza humana, suposições que colocam o poder (consequentemente, a responsabilidade) das suas ações nas suas próprias mãos. Algumas dessas suposições podem ser determinadas diretamente:

ALGUMAS SUPOSIÇÕES

FAZER ARTE ENVOLVE HABILIDADES QUE PODEM SER APRENDIDAS. A sabedoria popular aqui é que enquanto o “ofício” pode ser ensinado, “arte” continua um dom mágico concedido somente pelos deuses. Não mesmo. Em larga escala, se tornar um artista consiste em aprender a aceitar você mesmo, o que faz o seu trabalho pessoal, e em seguir a sua própria voz, que é o que faz o seu trabalho distintivo. Claramente, essas qualidades podem ser estimuladas pelos outros. Até mesmo talento é raramente diferenciável, no longo prazo, de perseverança e muito trabalho duro. É verdade que a cada punhado de anos os autores encontram algum estudante iniciante de fotografia cujas fotos do primeiro semestre parecem cuidadosamente trabalhadas como qualquer uma que Ansel Adams possa ter feito. E é verdade que um dom natural como esse (especialmente nessa  época frágil do começo do aprendizado) encontra um encorajamento inestimável para o seu criador. Mas tudo isso não tem nada a ver com conteúdo artístico. Em vez disso, simplesmente constata o fato de que a maior parte de nós (incluindo o próprio Adams!) teve que trabalhar anos para aperfeiçoar sua arte.

ARTE É FEITA POR PESSOAS ORDINÁRIAS. Criaturas que tem somente virtudes dificilmente podem ser imaginadas fazendo arte. É difícil imaginar a Virgem Maria pintando paisagens. Ou o Batman moldando vasos. A criatura sem falhas não precisaria fazer arte. E então, ironicamente, o artista ideal é basicamente uma figura teórica. Se a arte é feita por pessoas comuns, então você precisaria aceitar que o artista ideal seria uma pessoa ordinária também, com todo o saco de traços que acompanha todo ser humano real. Essa é uma dica enorme sobre arte, porque ela sugere que nossa falhas e fraquezas, enquanto que obstáculos para terminarmos nossos trabalhos, são também a fonte de nossa força. Algo sobre fazer arte tem a ver com superar coisas, dando-nos uma oportunidade clara de  fazer coisas da maneira que nós sempre soubemos que deveriam ter sido feitas.

FAZER ARTE E APRECIAR ARTE SÃO DIFERENTES EM SUA ESSÊNCIA. O ser humano sensato está satisfeito que o melhor que ele/ela pode fazer em um dado momento é o melhor que ele/ela pode fazer a qualquer momento. Essa crença, se amplamente adotada, tornaria esse livro desnecessário, falso, ou ambos. Tal sensatez, é, infelizmente, rara. Fazer arte provê um feedback preciso e desconfortável sobre a lacuna que inevitavelmente existe entre o que você desejou fazer e o que você fez. De fato, se fazer arte não dissesse a você (quem fez) tanto sobre você mesmo, então fazer arte com a qual você se importa seria impossível. Para todos os espectadores, menos você, o que importa é o produto: a arte finalizada. Para você, e você sozinho, o que importa é o processo: a experiência de moldar aquela arte. Os interesses dos espectadores não são os seus interesses (ainda que seja perigosamente fácil adotar a atitude deles.) O trabalho é o que quer que seja: ser movido pela arte, ser entretido por ela, de matar através dela, que seja. O seu trabalho é aprender a trabalhar no seu trabalho.

Para o artista, essa verdade sublinha um corolário bastante familiar e previsível: fazer arte pode ser um negócio ingrato e bem solitário. Virtualmente todos os artistas gastam algum do seu tempo (e alguns artistas gastam virtualmente todo o seu tempo) produzindo trabalho que ninguém se importa. Simplesmente parece vir junto com o pacote. Mas por alguma razão – auto-defesa, talvez – artistas acham tentador romantizar essa falta de resposta, frequentemente imaginando (heroicamente) eles mesmos espreitando profundamente na natureza fundamental das coisas bem antes de qualquer outro alguém ter tido os olhos para ver.

Romântico, mas errado. A decepcionante verdade é o que desinteresse dos outros dificilmente reflete um abismo em visão. De fato, não há, de modo geral, nenhum boa razão pela qual os outros devam se importar com o trabalho de qualquer artista. A função de uma parte esmagadora da sua arte é simplesmente ensiná-lo a fazer aquela pequena fração de arte que eleva-se. Umas das lições básicas e difíceis que todo artista deve aprender é que mesmo as peças falhas são essenciais. Raios-x de pinturas famosas revelaram que mesmo mestres algumas vezes faziam correções básicas no meio do caminho (ou apagavam erros realmente burros) pintando sobre a tela ainda molhada. O ponto é que você aprende a fazer o seu trabalho através do trabalho, e muita das peças que você fará ao longo do caminho nunca irão se destacar como arte finalizada. O melhor que você pode fazer é criar arte que você se importa – e muitas vezes!

O resto é largamente uma questão de perseverância. Claro que uma vez que você fique famoso, colecionadores e acadêmicos circularão ao seu redor em massa reivindicando crédito por ter reconhecido evidências do seu gênio desde a primeira peça. Mas até que seu navio não atraque nesse porto, as únicas pessoas que se importarão com seu trabalho são aquelas que se importam com você pessoalmente. Aqueles próximos de você sabem que criar arte é essencial para o seu bem-estar. Eles sempre irão se importar com o seu trabalho, senão porquê é ótimo, porque é seu – e isso é algo para ser genuinamente agradecido. Ainda assim, não importando o quanto eles amem você, ainda é verdade para o resto do mundo: aprender a fazer o seu trabalho não é problema deles.

ARTE É FEITA HÁ MAIS TEMPO QUE O NEGÓCIO DA ARTE EXISTE. Através da maior parte da história as pessoas que fizeram arte nunca pensaram delas mesmas como fazendo arte. De fato, é bem provável que arte estava sendo feita bem antes do nascimento da consciência, anteriormente ao pronome “Eu” ser utilizado alguma vez. Os pintores nas cavernas, longe de pensarem neles mesmos como artistas, provavelmente nunca pensaram nem neles mesmos.

O que isso sugere, entre outras coisas, é que a visão atual que iguala arte com “auto-expressão” revela  mais um viés contemporâneo no nosso pensamento do que um traço fundamental do meio. Mesmo a separação da arte do ofício, do artesanato, é largamente um conceito pós-Renascentista, e mais recente ainda é a noção de que arte transcende o que você faz e representa quem você é. Nos últimos séculos, arte Ocidental passou de quadros (tableaus) retratando cenas de religiões ortodoxas para demonstração de cosmologias pessoais de uma-pessoa-só. O “Artista” foi gradualmente se tornando uma forma de identidade que (como todo artista sabe) frequentemente carrega consigo tantas desvantagens quanto vantagens. Considere que se artista é igual ao eu, então quando (inevitavelmente) você faz arte falha, você é uma pessoa falha, e quando (pior ainda) você não faz arte, você não é sequer uma pessoa, é ninguém! Parece bem mais saudável dar um passo para o lado desse círculo vicioso ao aceitar que há muitos caminhos para fazer arte bem sucedidamente – do reclusivo ao extravagante, intuitivo ao intelectual, do popular ao refinado. Um desses caminhos é seu.

Use Facebook to Comment on this Post

Arte & Medo – Observações dos Perigos (e Recompensas) de fazer arte – Introdução

ESSE É UM LIVRO SOBRE FAZER ARTE. Arte ordinária. Arte ordinária como em toda arte não feita por Mozart. Afinal, arte raramente é feita por pessoas como Mozart – essencialmente (estatisticamente falando) não há ninguém assim. Mas enquanto gênios surgem uma vez por século ou algo assim, boa arte é feita o tempo inteiro. Fazer arte é uma atividade comum e intimamente humana, cheia de riscos (e recompensas) que acompanham qualquer esforço que valha a pena. As dificuldades daqueles que fazem arte não são remotas e heroicas, mas universais e familiares.

Esse, então, é um livro para o resto de nós. Ambos os autores são artistas que trabalham, lutando diariamente com os problemas de fazer arte no mundo real. As observações que fazemos aqui são tiradas da nossa experiência pessoal, e referem-se mais as necessidades de artistas do que ao interesse do espectador. Esse livro é sobre o sentimento que temos ao sentar no seu estúdio ou sala de aula, na sua roda de oleiro ou teclado, cavalete ou câmera, tentando fazer o trabalho que você precisa fazer. É sobre entregar o seu futuro nas suas próprias mãos, colocando Livre Arbítrio acima de predestinação, escolha acima de acaso. É sobre achar o seu próprio trabalho.

Use Facebook to Comment on this Post