Arte & Medo – Parte I – Capítulo I

Escrever é fácil:
tudo que você tem que fazer é sentar encarando uma folha branca de papel
até que gotas de sangue se formem na sua testa.
– Gene Fowler

I.

A NATUREZA DO PROBLEMA

A vida é curta, a arte é longa, oportunidade é fugaz,
a experiência é traiçoeira e o julgamento é difícil.
– Hipócrates (460-400 A.C.)

FAZER ARTE É DIFÍCIL. Nós deixamos desenhos não terminados e histórias não escritas. Nós criamos trabalhos que não parecem serem nossos. Nós nos repetimos. Nós paramos antes de termos dominado nossos materiais, ou continuamos muito depois do potencial dos mesmos estarem exaustos. Frequentemente o trabalho que não fizemos parece mais real em nossas mentes do que as peças que já completamos. E então a questão surge: Como a arte é feita ? Por que, tão frequentemente, não é feita ? E qual a natureza dessas dificuldades que param tantos daqueles que começam ?

Estas questões, que parecem tão atemporais, podem na verdade serem particulares da nossa era. Pode ter sido mais fácil pintar um bisão nas paredes das cavernas há muito tempo atrás do que escrever essa (ou qualquer outra) frase hoje. Outras pessoas, em outros tempos e lugares, tinham instituições fortes para oferecerem-las conforto; veja a Igreja, o clã, ritual, tradição. É fácil de imaginar que artistas duvidavam menos do seu chamado quando estavam trabalhando a serviço de Deus do que trabalhando a serviço do eu.

Não é assim hoje. Hoje em dia quase ninguém se sente seguro ou confortável. Hoje em dia, arte não nasce de um terreno seguro que temos em comum: o bisão na parede da caverna é a mágica de outro alguém. Fazer arte agora significa trabalhar em face da incerteza; significa viver com dúvida e contradição, fazendo algo que ninguém se importa muito se você faz, e para o qual provavelmente também não haverá audiência nem recompensa. Fazer o trabalho que você deseja fazer significa colocar de lado essas dúvidas para que somente então você possa ver com clareza o que você fez, e desse modo enxergar para onde deve ir depois. Criar a arte que você deseja criar significa encontrar sustento no trabalho em si. Essa não é a Idade da Fé, Verdade e Convicção.

Ainda assim, mesmo a noção de que você tem algo a dizer nesse processo conflita com a visão prevalecente de fazer arte hoje – nomeadamente, que arte descansa fundamentalmente sobre a pedra do talento, e que talento é um dom aleatoriamente dado à algumas pessoas e não a outras. Em linguagem comum, ou você tem ou você não tem – arte ótima é produto dos gênios, boa arte é produto dos quase-gênios (o qual Nabokov disse que é mesma coisa de Quase-Cerveja), e de assim em diante até o patamar das revistas pulp ou daquelas revistas onde você pinta uma cor pelo número. Essa visão é inerentemente fatalista – mesmo que seja verdade, é fatalista – e não oferece nenhum encorajamento útil para aqueles que fariam arte. Pessoalmente, nós concordamos com Conrad no que diz respeito ao fatalismo: nomeadamente, que é uma espécie de medo – o medo de que o seu destino está em suas próprias mãos, mas que suas mãos são fracas.

Mas enquanto talento – para não mencionar destino, sorte e tragédia – cumprem seus papéis no destino humano, eles dificilmente são uma ferramenta segura e confiável para avançar a sua própria arte no dia-a-dia. Aqui no mundo do dia-a-dia (que é, afinal, o único que vivemos), o trabalho de engrenar o seu trabalho se torna um de ter certas suposições sobre a natureza humana, suposições que colocam o poder (consequentemente, a responsabilidade) das suas ações nas suas próprias mãos. Algumas dessas suposições podem ser determinadas diretamente:

ALGUMAS SUPOSIÇÕES

FAZER ARTE ENVOLVE HABILIDADES QUE PODEM SER APRENDIDAS. A sabedoria popular aqui é que enquanto o “ofício” pode ser ensinado, “arte” continua um dom mágico concedido somente pelos deuses. Não mesmo. Em larga escala, se tornar um artista consiste em aprender a aceitar você mesmo, o que faz o seu trabalho pessoal, e em seguir a sua própria voz, que é o que faz o seu trabalho distintivo. Claramente, essas qualidades podem ser estimuladas pelos outros. Até mesmo talento é raramente diferenciável, no longo prazo, de perseverança e muito trabalho duro. É verdade que a cada punhado de anos os autores encontram algum estudante iniciante de fotografia cujas fotos do primeiro semestre parecem cuidadosamente trabalhadas como qualquer uma que Ansel Adams possa ter feito. E é verdade que um dom natural como esse (especialmente nessa  época frágil do começo do aprendizado) encontra um encorajamento inestimável para o seu criador. Mas tudo isso não tem nada a ver com conteúdo artístico. Em vez disso, simplesmente constata o fato de que a maior parte de nós (incluindo o próprio Adams!) teve que trabalhar anos para aperfeiçoar sua arte.

ARTE É FEITA POR PESSOAS ORDINÁRIAS. Criaturas que tem somente virtudes dificilmente podem ser imaginadas fazendo arte. É difícil imaginar a Virgem Maria pintando paisagens. Ou o Batman moldando vasos. A criatura sem falhas não precisaria fazer arte. E então, ironicamente, o artista ideal é basicamente uma figura teórica. Se a arte é feita por pessoas comuns, então você precisaria aceitar que o artista ideal seria uma pessoa ordinária também, com todo o saco de traços que acompanha todo ser humano real. Essa é uma dica enorme sobre arte, porque ela sugere que nossa falhas e fraquezas, enquanto que obstáculos para terminarmos nossos trabalhos, são também a fonte de nossa força. Algo sobre fazer arte tem a ver com superar coisas, dando-nos uma oportunidade clara de  fazer coisas da maneira que nós sempre soubemos que deveriam ter sido feitas.

FAZER ARTE E APRECIAR ARTE SÃO DIFERENTES EM SUA ESSÊNCIA. O ser humano sensato está satisfeito que o melhor que ele/ela pode fazer em um dado momento é o melhor que ele/ela pode fazer a qualquer momento. Essa crença, se amplamente adotada, tornaria esse livro desnecessário, falso, ou ambos. Tal sensatez, é, infelizmente, rara. Fazer arte provê um feedback preciso e desconfortável sobre a lacuna que inevitavelmente existe entre o que você desejou fazer e o que você fez. De fato, se fazer arte não dissesse a você (quem fez) tanto sobre você mesmo, então fazer arte com a qual você se importa seria impossível. Para todos os espectadores, menos você, o que importa é o produto: a arte finalizada. Para você, e você sozinho, o que importa é o processo: a experiência de moldar aquela arte. Os interesses dos espectadores não são os seus interesses (ainda que seja perigosamente fácil adotar a atitude deles.) O trabalho é o que quer que seja: ser movido pela arte, ser entretido por ela, de matar através dela, que seja. O seu trabalho é aprender a trabalhar no seu trabalho.

Para o artista, essa verdade sublinha um corolário bastante familiar e previsível: fazer arte pode ser um negócio ingrato e bem solitário. Virtualmente todos os artistas gastam algum do seu tempo (e alguns artistas gastam virtualmente todo o seu tempo) produzindo trabalho que ninguém se importa. Simplesmente parece vir junto com o pacote. Mas por alguma razão – auto-defesa, talvez – artistas acham tentador romantizar essa falta de resposta, frequentemente imaginando (heroicamente) eles mesmos espreitando profundamente na natureza fundamental das coisas bem antes de qualquer outro alguém ter tido os olhos para ver.

Romântico, mas errado. A decepcionante verdade é o que desinteresse dos outros dificilmente reflete um abismo em visão. De fato, não há, de modo geral, nenhum boa razão pela qual os outros devam se importar com o trabalho de qualquer artista. A função de uma parte esmagadora da sua arte é simplesmente ensiná-lo a fazer aquela pequena fração de arte que eleva-se. Umas das lições básicas e difíceis que todo artista deve aprender é que mesmo as peças falhas são essenciais. Raios-x de pinturas famosas revelaram que mesmo mestres algumas vezes faziam correções básicas no meio do caminho (ou apagavam erros realmente burros) pintando sobre a tela ainda molhada. O ponto é que você aprende a fazer o seu trabalho através do trabalho, e muita das peças que você fará ao longo do caminho nunca irão se destacar como arte finalizada. O melhor que você pode fazer é criar arte que você se importa – e muitas vezes!

O resto é largamente uma questão de perseverância. Claro que uma vez que você fique famoso, colecionadores e acadêmicos circularão ao seu redor em massa reivindicando crédito por ter reconhecido evidências do seu gênio desde a primeira peça. Mas até que seu navio não atraque nesse porto, as únicas pessoas que se importarão com seu trabalho são aquelas que se importam com você pessoalmente. Aqueles próximos de você sabem que criar arte é essencial para o seu bem-estar. Eles sempre irão se importar com o seu trabalho, senão porquê é ótimo, porque é seu – e isso é algo para ser genuinamente agradecido. Ainda assim, não importando o quanto eles amem você, ainda é verdade para o resto do mundo: aprender a fazer o seu trabalho não é problema deles.

ARTE É FEITA HÁ MAIS TEMPO QUE O NEGÓCIO DA ARTE EXISTE. Através da maior parte da história as pessoas que fizeram arte nunca pensaram delas mesmas como fazendo arte. De fato, é bem provável que arte estava sendo feita bem antes do nascimento da consciência, anteriormente ao pronome “Eu” ser utilizado alguma vez. Os pintores nas cavernas, longe de pensarem neles mesmos como artistas, provavelmente nunca pensaram nem neles mesmos.

O que isso sugere, entre outras coisas, é que a visão atual que iguala arte com “auto-expressão” revela  mais um viés contemporâneo no nosso pensamento do que um traço fundamental do meio. Mesmo a separação da arte do ofício, do artesanato, é largamente um conceito pós-Renascentista, e mais recente ainda é a noção de que arte transcende o que você faz e representa quem você é. Nos últimos séculos, arte Ocidental passou de quadros (tableaus) retratando cenas de religiões ortodoxas para demonstração de cosmologias pessoais de uma-pessoa-só. O “Artista” foi gradualmente se tornando uma forma de identidade que (como todo artista sabe) frequentemente carrega consigo tantas desvantagens quanto vantagens. Considere que se artista é igual ao eu, então quando (inevitavelmente) você faz arte falha, você é uma pessoa falha, e quando (pior ainda) você não faz arte, você não é sequer uma pessoa, é ninguém! Parece bem mais saudável dar um passo para o lado desse círculo vicioso ao aceitar que há muitos caminhos para fazer arte bem sucedidamente – do reclusivo ao extravagante, intuitivo ao intelectual, do popular ao refinado. Um desses caminhos é seu.

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